Contadores de Histórias

“Quero viver dessa maneira. Quero viver de tal modo que as histórias que enriquecem minha vida venham das pessoas e das terras a meu redor, e de tal modo que meus amigos sejam pessoas com quem eu possa partilhar histórias. Dessa forma, criaremos juntos uma comunidade. E assim, quando chegar a hora de morrer, olharemos para o mundo a nosso redor, e a cada lugar para onde dirigirmos nosso olhar só veremos histórias.” Sam Keen

Thursday, May 18, 2006

O feijão e o sonho - Vila esperança


Houve um domingo em que contei uma história na Vila Esperança. Bom, não sei o que houve, mas eu não estava em sintonia com o público, nem com a história, nem com o propósito, que era o de oferecer àquelas famílias, que ali vinham buscar seu almoço de domingo, também algum alimento para a alma.
Constrangido e envergonhado, saí da sala. Nem mesmo fiquei para ouvir os outros contadores.
Fui conversar com o pessoal da ONG que prepara e distribui as refeições para a comunidade (cerca de cem famílias cadastradas recebem uma refeição quente todos os domingos). No bate-papo, fiquei sabendo que os domingos seguintes estavam comprometidos, pois a ONG estava praticamente sem nenhum estoque de comida e também sem nenhuma ajuda formalizada.
Desse bate-papo nasceu uma campanha, chamada de "O feijão e o sonho", lançada na Casa do Contador e que mobilizou muitas pessoas. Em pouco tempo, graças a amigos e aos amigos desses amigos, a campanha pôde mudar de nome e acabou se chamando “Feijão maravilha”:

- No somatório dessa parte da corrente , arrecadamos 131 kg de feijão, 265 kg de arroz, 78 kg de produtos diversos, R$ 550,00 em dinheiro e mais uma tonelada de amor.

- Tivemos o apoio da ONG VIVAMIGOS (http://www.vivamigos.org.br/), que mobilizou seus voluntários e num piscar de olhos triplicou as doações em espécie.

- Recebemos e-mails emocionados, mostrando que as doações vibraram fortemente as energias do bem.

- E várias pessoas telefonaram, interessadas em conhecer o projeto.

Foi por causa de uma história mal-contada que nasceu a campanha. Ou seria demais dizer que a história não me a queria contando naquele dia, porque tinha outros propósitos? As histórias são assim: imprevisíveis à sua maneira e muito sábias. O contador é um instrumento.

Rodas de Histórias na Vila Esperança
Duas vezes por mês, aos domingos, das 11 ao meio-dia, enquanto as famílias da comunidade Vila Esperança, em Curitiba, aguardam o almoço oferecido pela ONG Legião da Fraternidade, a Casa do Contador de Histórias realiza rodas de contação no local.


Jan

Friday, March 03, 2006

Conto histórias...



Porque gosto de ouvi-las...
Porque através delas sonho, me realizo, vou a lugares inimagináveis...
Lugares de neve, de cinzas, com bosques, mil estradas, ricos castelos e jardins encantados.
Encontro princesas, bruxas, duendes, fadas, meninas, meninos, pássaros, bichos e anjos...
Conto histórias que me tocam, que me ensinam ou simplesmente que me divertem...
Através delas sou herói, princesa, rainha, bruxa, cigana – mil faces e possibilidades...
Tantas possibilidades nos trazem as histórias...
Gosto especialmente das histórias com Anjos, porque acredito que sempre temos um deles pertinho da gente, nos cuidando e auxiliando: faça isto, não faça aquilo!!!!
Gosto das fadas... Queria poder vê-las voando pelos jardins...
As Bruxas me lembram o meu lado negro... que tento trazer à consciência para não me deixar dominar!
Histórias são projeções:
Os príncipes e heróis me lembram o meu amado... Os meninos corajosos o meu filho...
Minha filha é a princesa valente, às vezes tão carente....
E eu... ah! Sou a princesa sonhadora, a fada, a bruxa, o patinho feio que um dia virou cisne...
Ah! Quantas histórias para contar....
Gosto de ver as pessoas prestando atenção, viajando junto comigo na história, com os olhos brilhando de emoção...
Para mim, as histórias são um convite para uma viagem dentro de nós mesmos, para descobrirmos o personagem que somos, ou as “personas” que vivemos... Uma forma lúdica de viver e de poder encontrar a Nossa Essência, aquilo que nos faz únicos, donos de nossa própria história...

Cris

Thursday, March 02, 2006

Casa de Passagem (email recebido da Maisa em dezembro de 2005)




Amigos
Ontem mandei um e-mail para vocês sobre a Casa de Passagem. Mandei no susto, no impulso, chocada com a notícia que acabara de saber. Nem consegui falar muito da Casa, das pessoas.

Mas a alma de contadora de histórias não sossegou até voltar a falar com vocês sobre eles. Sobre as pessoas que os contadores de histórias encontram lá. Pessoas que a gente vê sempre, outras que encontra uma vez ou outra. E acordei no meio da noite com isso engasgado na garganta, e só voltei a dormir depois de escrever esse relato.

Quero falar pra vocês da Emily, que periodicamente está lá. Quatro anos, tratando um tumor no cérebro, está completamente careca. Olheiras fundas, rostinho abatido, se anima quando é convidada a contar histórias, e não quer parar. Suas histórias misturam as histórias que ouviu de nós com o que se passa na cabecinha dela. Mas todas as histórias que conta têm em comum heroínas com longas, longas cabeleiras coloridas: azuis, cor-de-rosa.

E a Caroláine? Se o nome se escreve assim, não sei. É falado assim por ela e pela mãe, com um sotaque forte nordestino. Porque Caroláine é do interior de Pernambuco. Recusando-se a entregar a filha com leucemia para a morte, a mãe foi saber onde era o melhor tratamento. E soube que era aqui, no Hospital de Clínicas. Moveu e move mundos e fundos, assedia prefeito e vereadores e comerciantes e todo mundo de sua cidadezinha, e vem conseguindo trazer a filha para tratamento. De ônibus. A leucemia em remissão, Caroláine agora faz tratamento para surdez, efeito colateral comum em crianças que se tratam da doença. Caroláine conta histórias, também, da vida dela. Ativa, serelepe. Um dia, chegou um carro com mantimentos doados para a Casa. E lá foi Caroláine ajudar a descarregar o carro, os bracinhos finos que só, carregando orgulhosa três latas de óleo de soja, mal e mal equilibradas. Advertida sobre o peso, solta Caroláine: “eu sou muito forte! Pode deixar que agüento!”. Ficamos calados todos. Com certeza ela agüenta, e vem agüentando mais que qualquer um de nós.

E o seu Arlindo, caminhoneiro aposentado, sempre acompanhado da mulher, dona Isabel, ela falante que só. Ela contava histórias do filho morto em um teste pra piloto, ele histórias da estrada, de assombrações, de mortos. E seu Arlindo se juntou a eles. A doença andou mais rápido que a fila do transplante de fígado.

E tinha a Márcia, tensa, tensa como a corda de um violino, e igualmente magra. O filho recém-nascido na UTI infantil, aguardando ficar mais forte para uma cirurgia cardíaca altamente invasiva, para corrigir um defeito de nascença. E os dias de Márcia eram na UTI, ao lado do filho. No início da contação de histórias, Márcia estava sentada na ponta da cadeira, parecia que ia sair correndo a qualquer momento e tão, tão triste, que a tristeza dela impregnava a sala toda. Foi ouvindo as histórias, muito aos poucos a fisionomia descontraindo, até que riu às gargalhadas da aranha gulosa que queria ir a dois banquetes e obviamente se deu mal. E ria, ria, e a parte da frente da blusa ficando manchada, na altura dos seios, com o leite que vazava, e que não podia alimentar o filho, ligado a tubos na UTI.

Pois é. Essas são algumas das pessoas que a Casa de Passagem alimentou, abrigou e acolheu nos seus três anos de vida. Essas e mais de 1300 pessoas, que ficaram em média oito dias. A casa serviu mais de 29 mil refeições. É só olhar com detalhes os números que estão no relatório da Casa, dispostos de maneira bem simples, transparente e eficiente. Que nem a Casa de Passagem. Que está fechando as portas.

Assim, precisamos de idéias, de soluções, como falei ontem. De pessoas interessadas em ajudar. Divulgue para quem você acha que pode trazer uma idéia, uma apoio, uma solução.
O endereço, telefone e e-mail da Casa de Passagem estão abaixo.

CENTRO DE APOIO CASA DE PASSAGEM - CACP
R. Marechal Hermes, 1385, Centro Cívico
Curitiba - Paraná CEP 80.540-290
Tel / Fax: 41 3353 4494
e-mail:
cacp@casadepassagem.com.br
site:
www.casadepassagem.com.br

Maísa Guapyassú

Wednesday, March 01, 2006

Por onde ando?




Ando procurando a parede onde perdi a cabeçada que me deixou assim. Ando contando histórias para menores confinadas e pessoas famintas de pão e de afeto. Ando tentando juntar meus cacos para recompor o jarro que fui um dia. Ando começando e abandonado projetos, como tem sido sempre em toda a minha vida. Mas o que isso importa agora? Ando “em busca de um sono tranqüilo, quem sabe”. Ando lendo contos, parlendas, fábulas, lengalengas... E, dentro dos contos, parlendas, fábulas, lengalengas, ando redescobrindo que a vida pode dar prazer, ainda. Mesmo andando na contramão da opinião dos que me cercam, ando encontrando vontade de dizer o que sinto, essa vontade tão enfraquecida por todos os anos em que andei chutando a própria sombra ou dando murros em ponta de faca. Ando ouvindo menos queixas e mais as pessoas e os animais e a chuva e todos os sinais da vida. Ainda não ando devagar, mas meus passos, mesmo sem toda a decisão necessária, sentem melhor o chão. E por isso ando menos cansado, não porque tenho andado menos todos os dias, mas porque no meu caminho também andam duendes, heróis e bobos da corte que alegram a jornada. Ando sedento da fonte onde se oculta a Lua, cujo brilho embebeda os magos. Ando mais contente desde que rompi a teia que ensombrecia meu olhar, essa teia que andei fiando durante tantos anos, desconfiado da intenção dos outros. E, porque meu olhar se tornou mais suave depois que baixei a guarda, ando compreendendo melhor as pessoas. Aceitei que não querem de mim meus favores, e sim que eu seja apenas o que sou, emprestando-lhes minha voz e minha alma. Por isso, ando amando mais. Depois que deixei o castelo que ergui à beira da escarpa, nunca olhei para trás. E, desde então, fiel à andança, ando dormindo ao relento, na companhia de meus amigos, caçadores, artesãos, viajores, ouvindo e contando histórias à luz das fogueiras. Da mesma forma que comecei a andar, quem sabe, um dia, mil anos atrás.

Jan