Contadores de Histórias

“Quero viver dessa maneira. Quero viver de tal modo que as histórias que enriquecem minha vida venham das pessoas e das terras a meu redor, e de tal modo que meus amigos sejam pessoas com quem eu possa partilhar histórias. Dessa forma, criaremos juntos uma comunidade. E assim, quando chegar a hora de morrer, olharemos para o mundo a nosso redor, e a cada lugar para onde dirigirmos nosso olhar só veremos histórias.” Sam Keen

Thursday, March 02, 2006

Casa de Passagem (email recebido da Maisa em dezembro de 2005)




Amigos
Ontem mandei um e-mail para vocês sobre a Casa de Passagem. Mandei no susto, no impulso, chocada com a notícia que acabara de saber. Nem consegui falar muito da Casa, das pessoas.

Mas a alma de contadora de histórias não sossegou até voltar a falar com vocês sobre eles. Sobre as pessoas que os contadores de histórias encontram lá. Pessoas que a gente vê sempre, outras que encontra uma vez ou outra. E acordei no meio da noite com isso engasgado na garganta, e só voltei a dormir depois de escrever esse relato.

Quero falar pra vocês da Emily, que periodicamente está lá. Quatro anos, tratando um tumor no cérebro, está completamente careca. Olheiras fundas, rostinho abatido, se anima quando é convidada a contar histórias, e não quer parar. Suas histórias misturam as histórias que ouviu de nós com o que se passa na cabecinha dela. Mas todas as histórias que conta têm em comum heroínas com longas, longas cabeleiras coloridas: azuis, cor-de-rosa.

E a Caroláine? Se o nome se escreve assim, não sei. É falado assim por ela e pela mãe, com um sotaque forte nordestino. Porque Caroláine é do interior de Pernambuco. Recusando-se a entregar a filha com leucemia para a morte, a mãe foi saber onde era o melhor tratamento. E soube que era aqui, no Hospital de Clínicas. Moveu e move mundos e fundos, assedia prefeito e vereadores e comerciantes e todo mundo de sua cidadezinha, e vem conseguindo trazer a filha para tratamento. De ônibus. A leucemia em remissão, Caroláine agora faz tratamento para surdez, efeito colateral comum em crianças que se tratam da doença. Caroláine conta histórias, também, da vida dela. Ativa, serelepe. Um dia, chegou um carro com mantimentos doados para a Casa. E lá foi Caroláine ajudar a descarregar o carro, os bracinhos finos que só, carregando orgulhosa três latas de óleo de soja, mal e mal equilibradas. Advertida sobre o peso, solta Caroláine: “eu sou muito forte! Pode deixar que agüento!”. Ficamos calados todos. Com certeza ela agüenta, e vem agüentando mais que qualquer um de nós.

E o seu Arlindo, caminhoneiro aposentado, sempre acompanhado da mulher, dona Isabel, ela falante que só. Ela contava histórias do filho morto em um teste pra piloto, ele histórias da estrada, de assombrações, de mortos. E seu Arlindo se juntou a eles. A doença andou mais rápido que a fila do transplante de fígado.

E tinha a Márcia, tensa, tensa como a corda de um violino, e igualmente magra. O filho recém-nascido na UTI infantil, aguardando ficar mais forte para uma cirurgia cardíaca altamente invasiva, para corrigir um defeito de nascença. E os dias de Márcia eram na UTI, ao lado do filho. No início da contação de histórias, Márcia estava sentada na ponta da cadeira, parecia que ia sair correndo a qualquer momento e tão, tão triste, que a tristeza dela impregnava a sala toda. Foi ouvindo as histórias, muito aos poucos a fisionomia descontraindo, até que riu às gargalhadas da aranha gulosa que queria ir a dois banquetes e obviamente se deu mal. E ria, ria, e a parte da frente da blusa ficando manchada, na altura dos seios, com o leite que vazava, e que não podia alimentar o filho, ligado a tubos na UTI.

Pois é. Essas são algumas das pessoas que a Casa de Passagem alimentou, abrigou e acolheu nos seus três anos de vida. Essas e mais de 1300 pessoas, que ficaram em média oito dias. A casa serviu mais de 29 mil refeições. É só olhar com detalhes os números que estão no relatório da Casa, dispostos de maneira bem simples, transparente e eficiente. Que nem a Casa de Passagem. Que está fechando as portas.

Assim, precisamos de idéias, de soluções, como falei ontem. De pessoas interessadas em ajudar. Divulgue para quem você acha que pode trazer uma idéia, uma apoio, uma solução.
O endereço, telefone e e-mail da Casa de Passagem estão abaixo.

CENTRO DE APOIO CASA DE PASSAGEM - CACP
R. Marechal Hermes, 1385, Centro Cívico
Curitiba - Paraná CEP 80.540-290
Tel / Fax: 41 3353 4494
e-mail:
cacp@casadepassagem.com.br
site:
www.casadepassagem.com.br

Maísa Guapyassú

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