Contadores de Histórias

“Quero viver dessa maneira. Quero viver de tal modo que as histórias que enriquecem minha vida venham das pessoas e das terras a meu redor, e de tal modo que meus amigos sejam pessoas com quem eu possa partilhar histórias. Dessa forma, criaremos juntos uma comunidade. E assim, quando chegar a hora de morrer, olharemos para o mundo a nosso redor, e a cada lugar para onde dirigirmos nosso olhar só veremos histórias.” Sam Keen

Wednesday, March 01, 2006

Por onde ando?




Ando procurando a parede onde perdi a cabeçada que me deixou assim. Ando contando histórias para menores confinadas e pessoas famintas de pão e de afeto. Ando tentando juntar meus cacos para recompor o jarro que fui um dia. Ando começando e abandonado projetos, como tem sido sempre em toda a minha vida. Mas o que isso importa agora? Ando “em busca de um sono tranqüilo, quem sabe”. Ando lendo contos, parlendas, fábulas, lengalengas... E, dentro dos contos, parlendas, fábulas, lengalengas, ando redescobrindo que a vida pode dar prazer, ainda. Mesmo andando na contramão da opinião dos que me cercam, ando encontrando vontade de dizer o que sinto, essa vontade tão enfraquecida por todos os anos em que andei chutando a própria sombra ou dando murros em ponta de faca. Ando ouvindo menos queixas e mais as pessoas e os animais e a chuva e todos os sinais da vida. Ainda não ando devagar, mas meus passos, mesmo sem toda a decisão necessária, sentem melhor o chão. E por isso ando menos cansado, não porque tenho andado menos todos os dias, mas porque no meu caminho também andam duendes, heróis e bobos da corte que alegram a jornada. Ando sedento da fonte onde se oculta a Lua, cujo brilho embebeda os magos. Ando mais contente desde que rompi a teia que ensombrecia meu olhar, essa teia que andei fiando durante tantos anos, desconfiado da intenção dos outros. E, porque meu olhar se tornou mais suave depois que baixei a guarda, ando compreendendo melhor as pessoas. Aceitei que não querem de mim meus favores, e sim que eu seja apenas o que sou, emprestando-lhes minha voz e minha alma. Por isso, ando amando mais. Depois que deixei o castelo que ergui à beira da escarpa, nunca olhei para trás. E, desde então, fiel à andança, ando dormindo ao relento, na companhia de meus amigos, caçadores, artesãos, viajores, ouvindo e contando histórias à luz das fogueiras. Da mesma forma que comecei a andar, quem sabe, um dia, mil anos atrás.

Jan

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